quinta-feira, 5 de maio de 2011

Um minuto de orgulho .

Estava sentada na cadeira vermelha, bastante confortável por sinal, quando, sob toda uma excitação própria das crianças em momentos de euforia, ouço o anúncio da entrega de prémios. Os ânimos acalmaram e aquele microfone entoa a voz da directora.
"Ensino Secundário. Texto Livre." As minhas pernas tremiam, sentia o coração aos saltos... Quando, de repente, ela retoma as palavras e anuncia "Primeiro prémio... Rafaela Silva, 11ºA3"... Levantei-me e desci as escadas do imenso auditório, cumprimentei aqueles que, carinhosamente, me davam os parabéns. Subi ao palco e recebi o tal diploma junto com um papel dourado embrulhando dois livros. De repente, os flashs dispararam e eu ainda tremia. Tinha borboletas na barriga. Tinha ganho e ainda não estava consciente disso.
Foi um prémio ganho graças àqueles que todos os dias me incentivaram a continuar a escrever. Aqueles que leram as minhas míseras palavras, aqueles que me deram um abraço e me pediram para concorrer. Aqueles que nunca me rebaixaram. Aqueles que olham para mim e ainda têm algum orgulho naquilo que sou capaz de fazer.
Obrigado a todos. Este prémio é de todos vós, também.

sábado, 16 de abril de 2011

Obrigada !

O grito assustado despertou o pânico e ao mesmo tempo a frieza. Liguei o 112 e implorei uma ambulância. Ele tinha caído e o sangue escorria-lhe, fazendo-o perder a esperança de continuar a viver. Naquele momento, despediu-se de nós, disse-nos que gostava de nós e afirmou que partia, que nos deixaria... Ouço de imediato a sirene da ambulância, acreditei que eles o salvariam, mas o estado dele assustava-me. Impediram-me de estar perto dele, pois as lágrimas de desespero invadiram-me impiedosamente. Ouvia-a chorar desesperadamente. Estávamos ambas em pânico e só pensávamos naquilo que lhe poderia acontecer. Era o meu pai. Estava coberto de sangue e a sofrer. Imobilizaram-no e vi-o ali, deitado numa maca, a entrar numa ambulância. Era o meu pai que estava ali. Tive tanto medo de o perder. Mas eu sabia, lá no fundo, que um anjinho o tinha protegido e que ele ia voltar. As lágrimas teimavam em cair e o coração estava apertado. O nó na garganta impedia-me de falar. A ambulância partiu. Levava o meu pai. No hospital estava a minha irmã, preparada para longas horas de angústia ao lado dele em busca de trazer boas notícias. Sentei-me no sofá e não mais saí de lá. Agarrei-me ao telemóvel e esperei ansiosamente pelo telefonema dela. O telemóvel vibrou, corri para ele, apenas dizia que estava consciente e ia fazer exames. Foi uma tarde de tormento. Era o meu pai. Apesar de tudo, era o meu pai e eu precisava muito dele. À partida, não seria nada de grave, tendo em conta o sucedido. O anjinho esteve lá e protegeu-o. Eram duas horas da madrugada. Acordo sobressaltada com o telemóvel a tocar. Era a minha irmã. "Vamos buscar o pai", ouvi do outro lado. Julguei estar a sonhar. Mas não, levantei-me e chamei a mãe. Fomos, na noite gélida, buscá-lo aquele sítio tumultuoso. De repente, olho e vejo-o a caminhar vagarosamente. Senti um enorme aperto no peito. Nunca o tinha visto assim. Estava tão debilitado... A noite foi calma, contudo nem o sono me deixou dormir. Estava aflita e não me conseguia abstrair do momento em que o vi sentado no chão expelindo sangue como uma fonte de água. No dia seguinte, as dores permaneciam, metemo-nos no carro e rumámos a outro hospital. Entrei lado a lado com ele. Ganhei força e coragem, cresci naquele momento e acompanhei-o em todos os corredores daquele imenso hospital. Olhava para ele e sentia vontade de chorar, mas de imediato sentia algo que me encorajava de novo. O cansaço era muito, mas a vontade de o ver melhor era maior e não permitiu que eu desistisse. Lutei contra o cansaço e contra a fome. Aliás, a certa altura deixei de sentir o que quer que fosse. Ansiava que a porta do gabinete se abrisse e me dissessem que ele estava bem. Vagueei dum lado para o outro. Olhei o relógio vezes sem conta. Pedi a Deus que o ajudasse naquele momento. Implorei ao anjinho da guarda que o protegesse.  A porta abriu. Aproximei-me a medo e ouvi-a dizer que o meu pai estava bem. Vi-o a sorrir e com melhor aspecto. Deu-me vontade de chorar, mas tinha de manter a postura. Saímos do gabinete. Estava aliviada, tinha tratado bem dele e eu tinha conseguido aguentar todas aquelas horas. Alguém me disse "isso é que foi crescer"... Eu sei, naquele momento não havia espaço nem tempo para ter medos, receios, fome ou dores nas pernas. Era o meu pai e precisava de mim. Sinto que fiz o máximo que podia e continuo  fazer todos os dias, cada vez que o vejo deitado naquela cama. Cada vez que tenho de ralhar com ele. Cada vez que o obrigo a estar quieto. Cada vez que lhe dou um Brufen para as dores... 
Obrigada meu Deus, meu anjo da guarda, obrigada por teres deixado o meu pai perto de todos nós. Obrigada por o teres protegido das más energias e dando-lhe força para que lutasse contra as adversidades da queda. Obrigada meu anjo da guarda, por permitires que a cada dia que passa eu possa continuar a olhar o meu pai. 
Obrigada !

sábado, 5 de março de 2011

Até um dia...

Recordo a madrugada fria de Novembro em que recebemos a notícia que ele tinha partido. Partiu sem se despedir e deixou-te desamparada, sozinha naquela gélida casa... Lembro-me de te acolhermos, lembro-me de te dar a minha cama e dormir noites a fio, mesmo que desconfortável, no estreito sofá que tinha de partilhar com a minha irmã como se da nossa cama se tratasse. Lembro-me das noites em que dormi ao teu lado, no chão duro do quarto, como se me protegesses das tempestades, dos medos, do escuro que nos assombrava durante a noite... 
Lembro-me das traquinices características das crianças que te fazia... Lembro-me de correr com um sorriso nos lábios só para fazer troça de ti... Não podias acompanhar-me pois o cansaço já não to permitia... As tuas rugas transmitiam o cansaço; os teus olhos a dor que te ia no coração, mas ao mesmo tempo a felicidade de nos teres contigo; os teus cabelos brancos, quase sempre escondidos pelo lenço negro que fazias questão de usar, transmitiam-me a tua sabedoria... Recordo todos os dias em que regressava a casa e te tinha à minha espera, mesmo que mal te falasse... Recordo todas as discussões que tivemos, todas as vezes em que te falei mal, recordo tudo aquilo que proferi de maneira rude... Arrependo-me, pois eu gostava de ti e nunca to disse. Nunca te disse "obrigada", nunca te dei um abraço, nunca te disse "amo-te avó", nunca fui capaz de sorrir e dizer o quão importante eras para mim... Lembro-me de ter querido ensinar-te a ler e a escrever, lembro-me de me teres ensinado a jogar cartas (mesmo que depois eu fizesse batota para ganhar), lembro-me das inúmeras vezes que me entrançaste o cabelo... 
Lembro-me agora do dia em que te vi na cama pois sentias-te fraca. Lembro-me de saber que tinhas ido ao hospital e ter ficado com muito medo de te perder. Lembro-me de te dar a medicação e não conseguir ver as melhoras. Lembro-me de te encontrar caída no chão quando já era Deus a chamar-te para Ele. Lembro-me de te ouvir gritar pois a dor era insuportável. Lembro-me de chegar a casa e já não estares ali, tinhas ido e não sabia quando irias regressar. Lembro-me daquela quarta-feira  em que me disseram que estavas mal... Não podia esperar mais e fui a correr ter contigo. Subi aquele hospital com um enorme medo do que iria encontrar. Não conseguia imaginar-te deitada naquelas camas sem cor, naqueles quartos com um calor artificial que não te deixariam respirar o ar puro da nossa casa. Entrei a medo e vi-te. Os teus olhos brilharam quando nos viste entrar, afinal de contas éramos as tuas meninas. Aproximámo-nos e falamos-te. Renasceste naquele momento e parecias a pessoa mais saudável do mundo. Naquele momento julguei que no dia seguinte iria trazer-te comigo para casa, para te poder ver sorrir novamente...Já era tarde e tínhamos de regressar para casa, custava-me deixar-te ali no meio do desconhecido, mas tinha de ser e sabia que estavas bem entregue. Prometi-te que voltava no dia seguinte e disse-te "até amanhã". Lembro-me de quando estava a sair me chamaste e pediste um beijo. Apreensiva satisfiz o teu desejo. Lembro-me de sorrires e de sair do quarto. Deixei-te naquele dia com a esperança de te voltar a ter. Deus atraiçoou-me. Levou-te para junto dele. Eu sei, eu sei que estiveste à minha espera para poderes partir. Aquele beijo que nunca outrora havias pedido, foi um adeus, um adeus dito da melhor forma. O telefone tocou. A mãe foi atendê-lo. Tinhas ido. Partiste... Foste para o Céu... Os anjos estavam a preparar tudo para te acolherem no seu mundo... Deus levou-te de mim e deu-me uma estrelinha. És tu... És tu a estrela mais brilhante que todas as noites, mesmo com o céu encoberto, me deseja boa noite. És tu que me guias e não me deixas perder a força de viver...
Tenho saudades tuas, tenho pena que não estejas comigo neste momento. Oh avó, eu estou tão feliz. Nós estamos todos muito felizes e sentimos muito a tua falta. Oh avó, meu anjo da guarda, porque partiste tão cedo? Eu sei que estavas cansada deste mundo, que já tinhas vivido muito, mas eu ainda precisava de ti, ainda tinhas tanto para ver. Avó, eu prometo que um dia serei doutora. Irei casar com um bom rapaz e ter filhos lindos como o nosso menino. Ele está grande e é um bom menino. Avó, eu prometo que tu estejas onde estiveres, te vais orgulhar muito de nós, tal como te orgulhavas quando partilhavas a vida connosco.
Avó, um dia irei ter contigo e dir-te-ei o quanto te amo.
Peço-te que continues a proteger-me, a guiar-me e a iluminar-me nos momentos menos bons. 
Obrigada, meu anjo da guarda.

Até um dia,

a tua menina.